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Centros de dados estão tão famintos de energia que já se olha para o estrume das vacas

A corrida pela energia para alimentar a Inteligência Artificial (IA) chegou a um lugar improvável, em que o estrume de milhares de vacas está a transformar-se em eletricidade capaz de alimentar não só criptomoedas, mas potencialmente os centros de dados do futuro.


A Lent Hill Dairy Farm, em Steuben County, é descrita pela organização noticiosa sem fins lucrativos Sentinent como uma quinta leiteira normal, com estábulos vermelhos, cerca de 4000 vacas e um enorme depósito de estrume.


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Além disso, alberga duas estruturas gigantes em forma de cúpula, ou seja, digestores anaeróbios que transformam estrume e resíduos alimentares locais em biogás, também conhecido como gás natural renovável (em inglês, RNG).

Este tipo de tecnologia já é usada há anos para aquecer casas ou alimentar tratores.

No entanto, agora, em Lent Hill, o gás produzido está também a alimentar um sistema de mineração de de criptomoedas instalado no local, a primeira operação do género nos EUA, gerida pela empresa Ag-Grid Energy.


De criptomoedas aos centros de dados

Para a Ag-Grid Energy, a mineração de criptomoedas é apenas o começo. A empresa acredita que a digestão anaeróbia de estrume e resíduos alimentares pode vir a desempenhar um papel importante na alimentação de centros de dados, infraestruturas que já consomem cerca de 4,9% de toda a eletricidade produzida nos EUA, uma fatia que pode duplicar até 2030.

Para Rashi Akki, fundadora e diretora-executiva da Ag-Grid, este modelo pode levar valor económico e energético a zonas rurais historicamente esquecidas pela tecnologia.

A ideia passa por instalar pequenos centros de dados junto às quintas, aproveitando a eletricidade gerada localmente e, se possível, distribuindo capacidade computacional através de fibra ótica para a região envolvente.

Não é só a Ag-Grid a apostar nesta ligação entre agricultura e Inteligência Artificial (IA). De facto, a Microsoft já fez parceria com a empresa Enchanted Rock para usar biogás como energia de reserva num centro de dados, na Califórnia, e a Vanguard Renewables já apelida o RNG de "combustível da era da IA".


Um mercado potencialmente insuficiente

Apesar do entusiasmo, há quem duvide da real capacidade do biogás para dar resposta ao apetite energético da IA.

Na estimativa de Patrick Serfass, uma voz de referência no setor, os EUA aproveitam atualmente apenas entre 10% a 15% da capacidade potencial do mercado de biogás.

Na sua visão, os centros de dados poderão simplesmente "engolir" toda a oferta que a indústria consiga produzir, sem resolver o problema de fundo.

Ainda assim, o setor tem beneficiado de apoios públicos relevantes: o programa californiano Low-Carbon Fuel Standard financia perto de 200 digestores em 16 estados, e a Inflation Reduction Act, assinada por Joe Biden em 2023, injetou mais de 150 milhões de dólares em projetos de biogás.

Para Rashi Akki, seria importante aplicar créditos fiscais específicos para eletricidade gerada por digestores destinada a alimentar IA, à semelhança do que aconteceu com outras fontes renováveis.

Contudo, em maio deste ano, o Departamento de Agricultura dos EUA, já sob a administração de Trump, prolongou por 90 dias uma moratória sobre o financiamento a novos projetos de digestores, sinal de que o apoio político a este tipo de energia pode não ser tão consensual quanto a indústria gostaria.
Post Navi